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domingo, 10 de novembro de 2024

AS CASITAS DE MILHO

CASITAS DE MILHO


Se alguém, que viveu os anos 60
nesta "maravilhosa Chaveira/Chaveirinha",
decidisse começar a escrever apenas sobre o milho,
ou seja, como e onde se semeava,
como se trabalhava o terreno
para que fosse regado,
o que dele era retirado para alimento das pessoas e dos animais,
como era trabalhado, desde semeado, até servido à mesa,
em forma de broa, ou em grão,
numa pia ou capoeira como alimento animal,
teria, certamente, tema suficiente para preencher
muitas páginas dum volumoso livro.
Embora gostasse, um dia, poder fazê-lo,
pois vivi tudo isso e recordo esses tempos,
apesar de difíceis, com muita saudade,
hoje vou apenas recordar as "casitas de milho".
Poucos eram os lares, desse tempo,
que não possuíssem uma casita,
que também era constituída por uma eira
para secagem dos grãos.
Depois de atingirem a maturação,
as espigas eram transportadas para estas casitas,
onde eram descamisadas e, mais tarde, debulhadas
depois de expostas ao sol, na eira, até à sua completa secagem.
Como, em todas as aldeias, havia sempre algumas famílias
que cultivavam mais e outras menos
e famílias mais ou menos numerosas e,
como tal, havia muita entreajuda.
Aqueles que, por qualquer motivo,
já estavam mais folgados, juntavam-se ao serão,
com outras famílias, ajudando-as
para que todos conseguissem meter, nas arcas,
a tempo e horas, o precioso grão,
eram noites divertidas em que se contavam muitas histórias,
se contavam algumas anedotas e que se davam alguns abraços e beijinhos
quando aparecia uma espiga de milho negro (milho rei).
Em cada noite, depois das descamisadas,
as mulheres, crianças e alguns mais idosos regressavam a casa,
enquanto os outros improvisavam uma cama, em cima dos "camisos"
onde pernoitavam vigilantes,
pois corria o boato que as espigas desapareciam,
de vez em quando, não vá alguma mulher reclamar,
tenho conhecimento que algumas raparigas (poucas)
também ficavam de vigia, mas com a companhia do pai.
Também havia alguns homens que não dispensavam
o conforto da sua caminha, lá em casa,
na companhia da sua amada e,
vai daí, deixavam algo volumoso na cama improvisada,
lá na eira, a imitar alguém deitado,
para enganar os eventuais ladrões e iam dormir a casa.
Não sei se infelizmente ou felizmente, quase todas essas casitas,
tão importantes, nesse tempo, estão hoje em ruínas.

Contributo de José Henriques Marques 03/12/2021


PARA MEMÓRIA FUTURA


domingo, 28 de abril de 2019

MEMÓRIAS DA MINHA INFÂNCIA - DESFOLHADAS




O TRABALHO DO MILHO NA MINHA ALDEIA

Antigamente, os aldeãos cultivavam o milho nas hortas, 
Era um trabalho muito árduo, desde a preparação do terreno, sementeira, rega, com processos rudimentares, como seja o uso de uma picota para tirar água com um balde que levavam ao poço e puxavam para um reservatório, a fim de a encaminhar para o terreno, onde o milhareiro a recebia, com alegria para não morrer de secura.
Seguiu - se o processo da nora, que era um engenho puxado, normalmente, por um burro, andando à volta da nora para puxar água do poço, através de alcatruzes, que encaminham a água para a rega do milho, através de regos, que têm que ser calcados para a água não se perder. 
Eu e o meu irmão, em tempo de férias, Agosto, descalços, fazíamos esse trabalho, de que muito gostávamos.
faziam - se tranços nos regos, na horizontal e, dos tranços, a água ia para leiras.
Agora o pouco milho que ainda se cultiva é regado com mangueira ou mesmo só esperando a água da chuva.
Claro que já existem as regas artificiais que facilitaram muito o trabalho de outros tempos.
Quando o milho ainda não estava bem maduro tirávamos algumas maçarocas para grelhar e comer com manteiga.
Quando já estava maduro tirava-se a extremidade, chamada bandeira, que se utilizava para feno dos animais,
A seguir apanhavam - se as espigas do milho e levavam - se para as eiras, fazendo um monte, colocando na base, escondidas, melancias.
Aos serões juntavam-se as pessoas da aldeia para ajudarem a desfolhar as espigas do milho, tirando as folhas ou camisa.
Era uma alegria neste trabalho de convívio, cantando e conversando.
Sempre que saía uma espiga de milho preto, os rapazes iam dar abraços às meninas do grupo.
Ao acabarem o trabalho comiam-se as melancias, continuando o convívio.
Nos outros dias íamos para outras desfolhadas de outros vizinhos.
As espigas de milho, depois, eram malhadas, na eira, com moeiras ou manguais, pelos homens e as mulheres cozinhavam para todos.
Mais tarde quando as folhas do milho estavam bem secas, cortavam-se às tirinhas para pôr, no enchimento dos colchões. Também se utilizavam para alimentar os animais.
Os  grãos do milho eram levados para moinhos, movidos a vento ou a água, afim de serem moídos e transformados em farinha para o pão ou  papas.
Os moinhos na ribeira eram comunitários e cada um moía de sua vez.
Os fornos onde se cozia o pão eram também comunitários, cozendo cada um de sua vez. se, entretanto acabasse o pão pediam um emprestado a quem acabasse de cozer e depois devolvia.
Nunca esquecerei esta minha memória de belos tempos, na minha aldeia que é Chaveira de Cardigos, Mação, Santarém.



Gracinda Tavares Dias